A Irmã Morta

A Irmã Morta

Acordo de repente, como se um grito estivesse preso na minha traqueia. Por um momento não sei onde estou, mas a luz da lua ilumina o pequeno quarto e começo a reconhecer as pequenas coisas a que já me fui habituando. As portas de papel, o chão de madeira, o pequeno colchão desdobrável forrado em risquinhas em que me deito. Reparo que num dos cantos do quarto estão os demónios. Estes acompanham-me desde a minha chegada a esta casa.

Cheguei aqui há uma semana, ou pouco mais. É a casa dos pais de M., onde ainda vive toda a família: estes, uma avó e cinco irmãs mais novas. Mas a casa é tão grande, espalhada em corredores de madeira, plataformas e jardins interiores, que nunca vi nenhum deles. Apenas M. está comigo e falamos de muitas coisas. Ao início falávamos sobre eles, os demónios. Mas agora já me habituei à sua presença e não se tocou mais no assunto. Eles vivem aqui, com toda a família. Aparentemente sempre estiveram nesta casa, que pertence à família há muitas gerações. Aprenderam a viver todos juntos, eles não fazem muito barulho e a família ignora-os. Mas M. explicou-me que por vezes têm de ser eliminados, quando se portam muito mal. Mas não se parecem importar, como se a sua existência neste plano fosse algo fugidio e, de certa forma, acidental. São todos muito semelhantes, pequenas criaturas cobertas de pêlo negro, que cirandam de um lado para o outro deixando rastros de fumo escuro. São todos diferentes, com pequenas variações na forma do focinho, dos cascos das suas patinhas e nas caudas pontiagudas. Ao início tive medo, mas depois passei a ignorá-los. Dois deles apegaram-se a mim, se é possível que este tipo de criatura tenha qualquer tipo de emoção. Seguem-me para toda a parte, conversando baixinho numa linguagem estranha, sem vogais. Quando olho para eles fitam-me fixamente e depois voltam a conversar, gesticulando com os seus dedinhos bicudos. Pensei em dar-lhes um nome, mas M. disse-me que era melhor não lhes dar qualquer atenção, porque muitas vezes abusam da confiança e tornam-se incomodativos, pedindo restos à mesa e entrando na casa de banho enquanto lá estamos. Eles abrem e fecham as portas, mas já vi um ou outro atravessando paredes e tectos. Para eles, a dimensão do mundo é algo muito diferente.

Quando acordei nessa noite, os dois demónios estavam a um canto do quarto, repetindo as estranhas palavras, em acesa discussão. Quando acendi a luz, olharam para mim. Pelos vistos, tinha-os surpreendido. Pareceram encolher-se numa espécie de timidez e entraram para dentro do armário, fechando a porta de correr atrás de si. E foi nesse momento que M. entrou.

Entrou correndo, fazendo um grande estrondo com a porta. Os seus olhos brilhavam, esgazeados, ela suava e tremia.

“O que se passou?”

“A minha irmã… A minha terceira irmã… A minha avó acordou-me, diz que ela está morta, diz que a viu morta dentro do poço, toda vestida de branco. Foi um demónio, anda por aqui um demónio muito mais poderoso que os outros. E matou a minha irmã!”

Levantei-me. Subitamente, pareceu-me que via tudo com uma claridade diferente. Tudo estava intensamente focado, conseguia ver os pequenos poros do nariz de M., que se dilatava uma e outra vez devido à intensa respiração. Perguntei-lhe o que fazer.

“Vamos buscar a pequenina e tomas conta dela. Depois vamos ao quarto da minha irmã morta. Vamos encontrar o demónio. Vamos eliminá-lo.”

Acedi. Era convidada naquela casa, teria de ajudar da melhor forma possível. Fomos buscar a irmã mais nova ao seu quarto, passando por corredores sem fim e jardins húmidos de orvalho, iluminadas apenas pela força lunar que se elevava no céu azul, escuro mas ao mesmo tempo limpo e meditativo. A pequenina não percebia o que se passava, repetia apenas “a minha irmã morta, a minha irmã morta”. Peguei-a no colo, era muito leve. Tinha as formas rechonchudas, mas era muito leve. Tão leve que me questionei se ela realmente existia.

Atravessámos uma grande cozinha de pedra e saímos para o quintal, na zona Oeste da casa. Uma pequena casa toda caiada de branco, com portas de folha de alumínio pintadas de verde, surgia lá ao fundo.

“Ali dorme a minha irmã morta”, disse M.

“A minha irmã morta, a minha irmã morta”, repetia a pequena.

Tinha de ajudar da melhor forma possível. Pousei a menina e empurrei a porta. Ao meu lado M. segurava uma lança bífida, um leve metal preto e baço, com todos os músculos tensos, pronta a atacar. A luz do céu entrava pela única janela, caindo directamente sobre uma cama, ocupada por alguém.

Levantou-se, essa pessoa. Era a irmã que devia estar morta. Trazia uma camisa de noite muito branca, em contraste com a sua pele cor de azeite e dos seus cabelos negros, negros e gordurosos como se também eles estivessem embebidos em azeite. Os olhos eram muito grandes, tão escuros que não se podia distinguir a pupila. Sorria para nós. A um canto do quarto, ao lado da porta, reparei nos demónios, nos meus demónios, que tremiam aterrorizados, tocando-se e ganindo na sua língua de consoantes.

“Tu, minha irmã… Tu não tinhas morrido? A avó encontrou-te morta! Tu não tinhas morrido?”

Ela levantou-se, como um espectro, avançando para nós de braços abertos. Sorria, o seu sorriso era belo, o seu sorriso era hipnotizante, o seu sorriso escorria gordura vegetal, ao andar ela deixava pegadas de azeite. Mostrou os dentes, quadrados, direitos, brancos.

“Mas, querida irmã. Eu já estou morta.”

 

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