A Sala Redonda

A Sala Redonda

Não sei se já vos aconteceu a mesma coisa, mas de repente era madrugada e a minha sala era redonda. Eu estava dentro de uma esfera, uma bola de sabão recheada com as coisas da minha casa. Mas a luz era diferente e a luz era amarela demais. Lá fora na noite tudo se encontrava separado da minha nova realidade. Havia o amarelo e escuridão, mas dentro da minha bolha o amarelo era mais importante.

A Princesa do Reino de Saskia

Reino Mágico

Não me lembro de ser criança. Procuro nos meandros da minha memória, buscando alguma recordação entre as circunvalações do meu cérebro, mas as minhas lembranças são sempre as mesmas. As festas, os bailes, a minha irmã. As festas, os bailes, mais uma vez a minha irmã. Por vezes, os meus pais. Mas eles não são mesmo os meus pais. Ela não é mesmo a minha irmã mais velha. Mas não me lembro de nada antes disso. Alguma coisa impede a minha memória. Quem seria a minha verdadeira família?

Demos da Quarentena – A Viagem

Belial

Impossibilitado pela dama pestilenta, que nos proibiu determinantemente de aceder às portas, não posso observar os homens. A minha queda aconteceu precisamente por isso: olhei para os homens com demasiada atenção. Tanta que me esqueci de ser anjo e quis ser como um homem. Mas um homem tem sexo e tem costas e, naquele momento, eu apenas ardia como um olho em chamas. Por isso continuei a observar, até cair, passar por eles, e me instalar ao lado do meu irmão Lúcifer no trono dos infernos.

Demos da Quarentena – Outra Vida

Lucifer

  O meu problema é que me estão sempre a meter em filmes. Filmes que nem sequer são os meus. É uma coisa que me perturba, porem-me como um tipo de homem musculoso e sensual, com cabelos negros molhados da água do Letes caindo sobre a marmórea face. Uma merda. Ou quando me poem não como musculoso mas como estiloso, de fato e gravata, a lutar contra os meus amigos para espalhar as forças do bem. Foda-se. Eu odeio as forças do bem.