Três Sonhos para Freeman III

                Voltou a acordar sem se recordar exactamente do que tinha acontecido na noite anterior. Instintivamente, procurou a rosa na sua jarra. Lá estava ela, com um aroma que lhe trazia memórias mistas, emocionalmente desagradáveis. Ao seu lado, na mesa de cabeceira, uma pequena bandeja com um croissant, manteiga e uma chávena fumegante.

                Rapidamente, tentou reconstruir o que tinha acontecido. A mulher-rosa, o quarto, a janela do quinto andar. A água da jarra. Sede, tanta sede… Mas não! Não podia voltar a ficar envenenado. Porque aquilo era um veneno, um veneno desconhecido que ele nunca tinha experimentado. Um ponto falível na sua construção de máquina de matar. Lembrou-se do toque da mulher, que tinha sido inebriante ao ponto da inacção. Seria ela…. Seria ela o veneno? Sendo assim, não lhe podia tocar. Precisava de uma arma. Olhou para o pretenso pequeno almoço, provavelmente também cheio daquele veneno de rosa. A faca do pão.

                Levantou-se, fez alguns movimentos para alongar os músculos, e colocou a faca entre os lábios. A porta era inacessível. Restava-lhe a janela. Cinco andares? Perigoso, mas possível. Podia descer de floreira em floreira. Abriu a janela e preparou-se para a empreitada. Mas… O que era aquilo? Era um som que ele conhecia, vindo da janela do lado. Um batimento do coração que ele podia reconhecer a milhas de distância. A sua esposa! O tigre!

                Sem pensar duas vezes, colocou a faca entre os dedos dos pés e esticou-se sobre as floreiras. Num movimento ágil, as suas nádegas duras impulsionaram o resto do seu corpo. Tinha atravessado. A janela estava fechada, as cortinas corridas, mas por entre a transparência ele podia ver o que se passava. E aquele coração a bater. E um homem que falava suficientemente alto para que ele pudesse ouvir cada palavra com clareza.

                – Neste momento o teu marido já se rendeu ao veneno da minha querida Rosalia. Volto a explicar: ela é filha de cultivadores de rosa, e o seu corpo viveu tanto tempo entre as flores que adquiriu uma espécie de odor, um veneno que paralisa todos aqueles que ela quiser comer. Porque a Rosalia é uma vaca, sempre a comer, a comer e a ruminar e a comer. Por isso que a amo, sabes?

                Sentada na cama, com as mãos amarradas aos pés num complicado nó, estava a sua tigresa. A única que o compreendia, a única que lhe trazia ao de cima as solitárias emoções que ainda lhe era permitido manter. Ela estava calma, os seus batimentos indicavam. Apesar de amarrada numa posição desconfortável, ela mantinha todos os músculos relaxados, utilizando uma das famosas técnicas de medicação do grupo dos Dragons. E o homem continuava a gabar-se, como se nunca se cansasse de contar a mesma história:

                – Mais uns dias e saberemos. Ela está na fase da ovulação e, se tudo continuar como planeado, dentro de uns largos meses terá um filho dele. Estás a ouvir isto bem? Um filho do dragão, o certo sucessor da grande linhagem dos Hundred Eight Dragons. E com isso, eu e a Rosalia vamos ter o poder, vamos ser os pais do chefe do maior grupo criminoso do mundo!

                A ideia era tão ridícula que fez Freeman sorrir. Com a ponta da faca do pão, partiu um pedacinho do vidro da janela, o suficiente para deixar abrir o trinco. Então, com uma força impossível de parar, atirou a faca na mira da cabeça daquele homem idiota. Antes de ter sabido o que tinha acontecido, já estava morto, com a faca enterrada no lado esquerdo do seu crânio, uma pequena fonte de sangue saltando da ferida.

                Em silêncio, entrou e arrancou a faca do cérebro do homem. Os batimentos que continuava a ouvir aumentaram de ritmo. E agora a mulher na cama olhava para ele fixamente, sem dizer nada, sem mover um pelo. Os seus olhos estavam cheios de amor e alívio: ela sabia que ele a viria ajudar.

                Apesar da faca do pão ser romba e frágil, não era tarefa difícil para Freeman cortar uma corda. Abraçaram-se, a tatuagem do tigre e a tatuagem do dragão beijando-se através dos seus corpos. Tinham de passar logo ao momento seguinte: fugir. Mas antes que pudessem saltar os cinco andares, a porta abriu-se de rompante.

                Era a Rosalia, a mulher-rosa.

                – Freeman! Não te vi no quarto que escolhi para ti com todo o cuidado. E onde estavas tu? Claro que tinhas de estar aqui, a salvar esta puta! Aposto que graças a este idiota que está aqui morto, já sabes todo o meu plano. Bem, ele só estava aqui para cuidar desta tigrinha selvagem. Queria imenso possuí-la, sabes, mas ele não conseguia. Só eu é que o conseguia por em pé. Percebes agora o meu poder?

                Nisto, arrancou o vestido justo que usava e atirou-se como um animal na direcção de Freeman. Ele sabia que não lhe podia tocar e agora ela estava demasiado próxima para a amplitude da faca do pão. Mas agora ele já não estava sozinho. A sua esposa pensara mais rápido e, com os lençóis, asfixiava a mulher. Ela debatia-se e as duas rolaram pelo chão, mas agora Freeman estava livre. Com uma pontaria infalível, a faca do pão cravava-se agora no tórax de Rosalia, do qual brotava sangue. Como uma flor. Uma rosa.

                O casal voltou a abraçar-se. Mais uma vez tinha acontecido. Ele tinha destruído, ele tinha matado, por uma causa que não era a sua. Tinha colocado a sua amada em perigo, tinha feito tudo contra a sua vontade. Mas o que era vontade? Será que um assassino tem vontade?

                As lágrimas corriam-lhe pelas faces, a sua cara inexpressiva. Era ele, o Crying Freeman. Um homem que era livre para fazer o que quisesse, mas que estava preso a esta condição de dragão que nunca tinha pedido. Era livre, e agora estava mais livre que nunca. Mas chorava. Continuaria sempre a chorar.

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