Três Sonhos para Freeman II

                Anoiteceu e ele continuava deitado e imóvel. O suor escorria-lhe das axilas e a partir das virilhas húmidas o seu membro repousava pesado, sobre o abdómen atlético. Esperara pelo menos doze horas nesta posição e pressentia que algo estava prestes a acontecer. Como sempre, acertou.

                Ouviu um código a ser introduzido lá fora e o clique da fechadura enquanto se abria. Na luz do corredor insurgia-se uma silhueta feminina, altamente voluptuosa num vestido vaporoso. Não tocou no interruptor na parede. Simplesmente fechou a porta atrás de si e avançou naquela meia luminosidade. Parou em frente da cama e começou a despir-se, mas Freeman já estava pronto para se defender, com um joelho sobre o colchão e as mãos preparadas para desfazer e estrangular. A mulher apenas sorriu e continuou a despir-se.

                Naquele final de tarde, em que o sol e a lua ainda lutavam para saber quem seria o rei da noite, o corpo da mulher era misterioso e divino enquanto se desfazia dos pedaços de tecido que o atormentavam. Os seus gestos, embora directos, pareciam entrar em conflito com aquele vestido cinzento, tão abjecto e desnecessário. Era como uma luta em que já se sabia o vencedor: o corpo. O corpo finalmente livre daquelas amarras de barco, que o puxavam para um lugar onde nunca poderia mostrar o seu verdadeiro poder. E o corpo estava nu, as mamas redondas e direitas, a fina cintura musculada e a anca fértil. Pelos seus braços e pernas desciam tatuagens em forma de caules espinhosos, todos indo de encontro ao púbis, onde se formava uma bela e desfolhada rosa. Passou os dedos entre a sua flor e num movimento ágil tocou a boca de Freeman.

                – Vamos – disse ela – É a altura de o dragão impregnar esta flor.

                O que se seguiu foi confuso até para Freeman, que deixou de conseguir controlar o seu corpo e deixou-se cair nos braços daquela mulher misteriosa e gulosa, que o cobriu com todo o seu corpo. Havia uma fome dentro dela, e a flor delicada que tinha tatuada por dentro das pernas era como se tivesse uma boca, uma boca odorosa e vegetal. Uma boca venenosa e impossível de resistir, carnívora. Mesmo sabendo que tudo estava errado, Freeman não podia deixar de penetrar aquele corpo ondeado, com pernas que lhe enlaçavam os rins, com mãos que lhe agarravam o cabelo e o dominavam. A sua mente de assassino lutava dentro do seu corpo, que se via obrigado a satisfazer essa tal necessidade de impregnação da mulher faminta. Tentava tirar aquela sibila de cima de si, mas as suas mãos não lhe obedeciam. Em vez de murros, carícias. Em vez de uma joelhada, cobri-la com as pernas e possuí-la de todas as formas, frontais, laterais, o mundo ao contrário.

                Tudo estava quebrado dentro dele. Aquela não era uma das suas conquistas. Na verdade, lembrava-se vagamente de a ter visto no jantar da noite passada. De passagem. Não, ele não a conhecia, o que queria ela dele? O que significava aquela conversa de impregnar uma flor? Mas era demasiado tarde, e os seus fluídos enchiam a cama e o tecto de aromas sexuais. Era demasiado tarde e ele não conseguia fazer nada, ele não podia fazer nada, tudo o que ele queria, tudo o que ele não queria. Não podia dizer nada.

                “Será isto uma violação?”, surgiu o pensamento ao de longe, como um eco no meio de pedaços de espelho. Era isto o que sentia a sua mente desfeita, o seu corpo desfeito, cansado, suado, batido, com marcas roxas e vermelhas nos sítios onde a mulher o tinha mordido.                 Não havia maneira de recuperar o controlo. Dormiu.

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