Três Sonhos para Freeman I

                Freeman. O jovem dragão. Sim, era esse o seu nome. Freeman? Seria mesmo esse o seu nome? Ou apenas uma identidade?

                À medida que a luz nascente surgia entre as cortinas transparentes do quarto, as suas ideias começaram a tomar forma. Sentia-se ausente do seu corpo, que podia ver abaixo dele deitado na cama macia. Lençóis de linho retorciam-se à volta da sua nudez integral, revelando uma noite agitada que agora terminava, um sono nervoso e inconstante, uma respiração tremendo. O que teria acontecido?

                Espremendo as pálpebras, num esforço para acordar, as memórias vagas surgiam-lhe em ondas, causando uma espécie de tontura. Sim, lá estava ela. A sua amada, poderoso tigre prenhe, vestida à moda chinesa pelas mãos de um dos últimos designers. Os gestos delicados ao ajustar os óculos no nariz, depois colocando as mãos na garrafa de baijiu para o servir. Estava como sempre costumava estar, a sua vulgaridade tão bela no porte, o silêncio quebrado pelo olhar confiante, o olhar que era apenas dele, que confiava apenas nele. E depois uma certa fraqueza nas pernas: ela já lá não estava. Teria sido a bebida? Não, não podia ser. Como mestre de todos os venenos, que todos tinha provado para se tornar imune aos seus efeitos, o álcool não o afectava.

                As suas narinas tremeram, detectando um cheiro subtil misturado com o seu próprio suor. Rosas…. Rosas? Abriu os olhos. Viu a sua mão e experimentou movimentar os dedos, um de cada vez e depois fechando-se num punho. Começou a levantar-se, colocando todo o seu peso no braço perlado de suor, e os seus olhos encontraram um elemento estranho. Uma rosa numa jarra de cristal. Rosa?

                Subitamente, a sua boca encheu-se de secura, a sua língua inchando em milhares de espículas gustativas. Precisava de água. Ele que conseguiria sobreviver num deserto por quarenta dias, sem sede e sem necessidades? Como assim?

                Procurou algo para beber, acabando por se apropriar da jarra que tinha visto. Agora estava acordado. Com os seus sentidos novamente activos, tão aguçados como os de um réptil mágico, reganhou a compostura e focou-se em perceber a sua situação. Era um quarto, provavelmente de um hotel. Amanhecia lá fora, mas ele sabia o suficiente para não se aproximar imediatamente da janela. Aliás, de pernas esticadas na cama e o tronco apoiado sobre os braços, parecia estar em profunda meditação, olhando para além do que estava à vista desarmada. Um quadro com uma rosa, uma cómoda que estava certamente vazia, a cama de dossel totalmente desfeita e a jarra. Completamente direita, sem um desvio, sem uma nódoa, com a flor apaixonada depositada ao seu lado. Pegou na flor. Rodou-a entre os dedos e voltou a coloca-la no seu lugar original. Só depois foi verificar a janela.

                A janela tinha uma balaustrada larga, com uma floreira, e estava pelo menos num quinto andar. Seria um salto possível, mas perigoso. A poucos metros, surgia outra janela, e elas sucediam-se em fileiras. As traseiras. Na rua, num passeio limpo, calcetado, muito branco, quase ninguém andava. As árvores cheias de pássaros traziam um odor de paz. Experimentou a porta. Trancada por fora, e podia perceber-se que havia um grande – embora discreto – dispositivo de segurança.

                Restava-lhe esperar.

                Só então percebeu que algo se estava a operar no seu corpo. Era-lhe indiferente, mas a sua penugem púbica eriçava-se, com o membro tentando estalar para fora da pele. Tocou-lhe com breve curiosidade, e houve um tremor. Uma vaga imagem do corpo da sua esposa, sempre tão túrgido e familiar. Mas em Freeman não havia emoção. Tinha sido transportado para o mundo dos Hundred Eight Dragons e agora era ele próprio um dragão, uma máquina aperfeiçoada para lutar, para matar, para ser o mestre da tempestade que arrasava o mundo. Todas as memórias, todos os sentimentos pareciam viver numa gaveta tão vazia como a daquela cómoda.

                Restava-lhe esperar.

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