A Sala Redonda

A Sala Redonda

                Não sei se já vos aconteceu a mesma coisa, mas de repente era madrugada e a minha sala era redonda. Eu estava dentro de uma esfera, uma bola de sabão recheada com as coisas da minha casa. Mas a luz era diferente e a luz era amarela demais. Lá fora na noite tudo se encontrava separado da minha nova realidade. Havia o amarelo e escuridão, mas dentro da minha bolha o amarelo era mais importante.

                A luz falava, é certo, mas não se conseguia perceber o que dizia. Porque a luz falava à moda das luzes, tremendo e de vez em quando desaparecendo, e eu falo à maneira das pessoas que é por palavras. As palavras saiam seguidas, seguidas, todas umas atrás das outras, sem sentido e sem direcção, porque dentro da bolha éramos livres para dizer tudo um ao outro e, ao mesmo tempo, esquecer o que havíamos acabado de dizer.

                Depois havia um som, que era o da terra a tremer. Um terramoto? Nada disso. Era o som da terra a falar, pois quando a terra fala ela treme. Era uma espécie de vibração e eu podia ouvi-la muito claramente, misturada com a voz da luz e com a minha voz. Dizia-me que tivesse medo, mas eu não tinha medo de nada, claro. Porque a sala era redonda.

                E depois foi como se alguém me tivesse desligado a electricidade. Caí no chão, ou terá sido no sofá, e deixei de existir. Isso foi de certa forma maravilhoso. A não-existência era tudo o que me faltava. Finalmente essa experiência. Quando voltei, a sala já não era mais redonda.

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