Necessitava eu de um matadouro?

Matadouro

                Vi recentemente uma pergunta a estudantes de medicina, que lhes questionava “que cadeiras tirariam do curso?” Não hesitei em responder por mim própria: eu teria tirado todas as cadeiras de tecnologia alimentar.

Não só porque nunca me apeteceu conhecer os meandros do fabrico de um salpicão de tipo italiano. O que eu realmente odiava nessas aulas era o matadouro. As visitas aos matadouros. Tanto que, invocando razões religiosas (inexistentes) consegui faltar a todas as aulas do último ano.

Eu sei que somos seres humanos e que necessitamos de comer carne, em relativa pouca quantidade, porque precisamos dos aminoácidos da proteína animal. Mas o que me impressiona no matadouro não é a morte, não é a transformação em carne. É como todo o processo é o de uma fábrica, sem nenhum tipo de valor ético para além da eliminação da dor. Os animais entram vivos e saem transformados em salsichas, tudo isso com uma desumanidade, uma frieza, uma rapidez que me choca.

As paredes brancas, imaculadamente limpas, escondem a verdade por trás do negócio, a maximização do produto, a maximização de um ser vivo e senciente enquanto produto. Porque eu podia reparar, em todas as visitas, que do tecto caiam grossas pingas de gordura, que nos sujavam as toucas e as batas e, por vezes, entravam em contacto com a pele das mãos, com a pele da cara.

Impossível esconder o que, não sendo uma crueldade directa, é de uma fealdade inexplicável.

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