Gentes dos Transportes II

Gentes dos Transportes II

                Iniciado o desconfinamento, voltei a andar de transportes. E andar de transportes significa que, necessariamente, existe um exercício de observação dos outros utentes do autocarro.

Continuam a passar-me à frente, é verdade. Por vezes irrita-me: passam-me à frente e não têm máscara. Então mandam-nos embora do autocarro e tudo se atrasa, mais tempo em pé, e ao sol, com sapatos que me fazem bolhas.

Mas por vezes há belas imagens. Como a rapariga de saia que, de pernas cruzadas, abanava um dos seus membros ao ritmo da brisa que soprava. Parecia que a perna abanava porque era o vento que a dirigia. No outro dia vi um senhor com mãos enormes, uma delas pousada no banco à minha frente. As suas mãos eram gigantescas, como um titã, longas e secas. Acariciava o banco e pensei que me fosse estrangular, agarrando-me o pescoço com um só gesto. Foi assustador.

Vi um homem de perna cruzada mas, junto à canela, a sua perna estava toda queimada. Era um misto de rugoso e liso, como uma folha amachucada, ou como a pele curtida de um animal mitológico.

Mas as pessoas são bonitas. As pessoas são interessantes. Espero continuar a poder vê-las durante um longo tempo.

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