Demos da Quarentena – A Viagem

Belial

Há um leitor que está enfadado com a situação e quer que lhe contem uma estória – A Viagem

 

 

Impossibilitado pela dama pestilenta, que nos proibiu determinantemente de aceder às portas, não posso observar os homens. A minha queda aconteceu precisamente por isso: olhei para os homens com demasiada atenção. Tanta que me esqueci de ser anjo e quis ser como um homem. Mas um homem tem sexo e tem costas e, naquele momento, eu apenas ardia como um olho em chamas. Por isso continuei a observar, até cair, passar por eles, e me instalar ao lado do meu irmão Lúcifer no trono dos infernos.

Tenho saudades deles. A forma como diziam mal do meu pai, a forma como se odiavam uns aos outros. Os homens matam-se! Os homens matam. E os que estão zangados vêm ter comigo. Estou sempre em cima deles para garantir que nenhum me escapa. Mas agora não posso transpor as portas de Gibeah e não tenho nada que fazer.

Há vinho, é certo. Posso sempre conversar com as minhas dragonetas. Mas, coitadinhas, elas são totalmente destituídas. Tive de isolar uma ou duas, pois estavam a desesperar, por estarem distanciadas dos homens que tanto amam. Pensando bem, posso fazer uma viagem e visitar o Paimon. Há algum tempo que não o vejo e bem podia trocar dois dedos de conversa com ele. Falar sobre camelos, que ele gosta tanto. É melhor começar a preparar uns sacrifícios para lhe levar. Só assim é que se pode ter uma conversa séria com ele.

Mandei buscar umas escravas, uma carroça conduzida por um burro, alguns soldados e o meu cavalo. Eles iriam depois de mim como uma segunda oferenda, porque na minha sacola lhe levo algo muito especial. Tirado da minha adega antes de a porta se ter fechado, um vinho dos homens. Com uvas a sério.

Lá fui eu cavalgando pelo ar. As patas do meu cavalo preto pisam os espíritos que vagueiam nos céus do meu deserto, calcando-os com força. O deserto continua sempre lindo. Sempre igual a si próprio, ardente e sem noite. Três sóis se iluminam ao mesmo tempo no céu azul, sem nuvens. Os meus olhos viajam em todas as direcções. Areia.

Subitamente, vejo uma mancha verde no meio do meu querido deserto. Um oásis? Não me lembro de existir um oásis…. O cavalo desce e pousa na terra fofa, deixando as marcas dos cascos bem definidas no chão. Também ficam marcas dos meus pés.

Entro num jardim labiríntico, cheio de flores cheirosas e plantas suculentas. Rosas pálidas espreitam por entre as sebes. Colho uma, mas pica-me. Uma gota de sangue negro cai no chão, desfazendo-se em fumo. Não sabia que isto se passava no meu reino. Parece-me interessante.

Volto a montar e cavalgo pelo jardim, destruindo o caminho por onde passo e deixando-o negro, retorcido. A violência agrada-me, por isso me alimento dela. O cavalo chega a um edifício de mármore, rectangular, com cascatas de água cristalina a sair das janelas. Incito-o a continuar e entramos. Voando pelas escadas acima, galopamos até um terraço perfeitamente quadrado, onde fileiras de mulheres vestidas de verde me dão as boas vindas.

Tento recordar-me de quem serão.

O lugar onde estamos flutua sobre as areias do deserto, que caem em torrentes de vidro umas por cima das outras. Uma das mulheres pega-me na mão. É bela. Toca-me a face e toca-me os olhos, sorrindo. Quem será?

Todas as mulheres se aproximam de mim e despem as suas roupas verdes. Centenas de vestidos, capas, blusas, casacos, ténis, roupas ocultam os seus corpos, que se unem ao meu, beijando cada olho do meu corpo. O cavalo olha placidamente para tudo, apoiado em três patas.

Já me lembro. Bruxas. Elas andam entre os infernos e fazem estas coisas. Há algum tempo que não as encontrava. Foram condenadas pelo meu pai a serem queimadas para a eternidade, mas nós gostamos delas. Demos-lhes poder e elas usam-no para nos adorarem, viajando entre os vários planos pela eternidade.

Paimon vai adorar esta história, embora ele preferisse ter encontrado feiticeiros. Eu sei como é que ele é. Adoraria partilhar isto também com os homens. Dar-lhes sonhos e esperança, para depois virem ter comigo e arder comigo.

É que me sinto tão só.

 

Este conto faz parte do desafio lançado por Rafael Dionísio, no seu Grupo Escrita Narrativa, de contar uma história ao longo do período de quarentena. Com isto, decidi fazer a série “Demos da Quarentena”, em que os vários demos falarão das consequências que a pandemia está a ter para eles. 🙂

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