Demos da Quarentena – Outra Vida

Lucifer

Há um leitor que está enfadado com a situação e quer que lhe contem uma estória – Outra Vida

 

O meu problema é que me estão sempre a meter em filmes. Filmes que nem sequer são os meus. É uma coisa que me perturba, porem-me como um tipo de homem musculoso e sensual, com cabelos negros molhados da água do Letes caindo sobre a marmórea face. Uma merda. Ou quando me poem não como musculoso mas como estiloso, de fato e gravata, a lutar contra os meus amigos para espalhar as forças do bem. Foda-se. Eu odeio as forças do bem.

Eu sou do mal.

O pior é quando me obrigam a ouvir música. Vê-se mesmo que não me conhecem. Entram por aquela história do aaanjo mais beelo de deeuss, assim dito com esta vozinha. Eu nunca fui belo, não quero ser, odeio coisas belas. Vê-se mesmo que não me conhecem. Eu não caí do céu meus amigos, eu atirei-me de lá.

O filho da puta continua atrás de mim e a culpar-me pelas merdas do mundo dos humanos, como se a mim me interessassem essas coisinhas filhas da puta. Sim, é certo. Eu alimento-me deles. Eu alimento-me do medo deles. Mas estão sempre a usar-me para se assustarem a si mesmos e há limites para tudo.

É assim, no outro dia eu estava simplesmente a relaxar com uns amigos numa casa de umas pessoas quaisquer. Quem estava lá? Mammon, o Leonardo, esse grande maluco, o Belial… E uma súcubo ou duas, não sei. Enfim, estávamos a beber uns copos e de repente uma das miúdas olha pela janela e diz “olha, está ali um cota coxo”. Eu fui ver e, filha da puta, era ele. Estava disfarçado, com um kispo verde, mas aquela perna coxa não engana ninguém, muito menos eu que sou o chefe desta merda.

Tentei mantê-lo preso no rés-do-chão, em burocracias. Ele fica nervoso com burocracias, para ele é tudo muito directo. Mas depois apareceu o caralho de uma fénix dourada no céu e entrou pela puta da janela e tocou nos meus amigos e aí ficou toda a gente desconfortável. Quando aparecia a fénix significava que o cota já se estava a passar.

Então decidimos todos bazar, porque aquele anormal já tinha estragado a festa. Mas o cabrão tem maneiras de funcionar que te atrofiam, e aí mais uma vez estou metido nos filmes desse gajo e sinto-me terrível! Odeio sentir-me terrível! Mas foi o que eu senti, porque o gajo, todo omnipotente, mandou-me de castigo meditar numa caverna de gelo, onde alguém me tinha posto com um iPod a ouvir os Linkin Park. Odeio nu metal.

Concentrei-me para voltar à realidade e lá estava eu na casa. Soava um trompete, modal jazz. Odeio. Tinha de sair dali o mais rápido possível. O pessoal já tinha ido todo embora, eles estavam bem porque sabiam que o gajo só me queria a mim. Como eu fugi dele, do lugar que ele tinha criado, anda sempre à minha procura, para me levar de volta. Posso considera-lo meu pai, mas a verdade é que o tipo é pai de toda a gente, portanto…. Enfim, lá fui eu pela janela, andando pela calçada preta, até entrar no meu palácio. Pelos corredores polidos, andei em passo rápido, para tentar chegar ao meu quarto.

Claro que o gajo tinha de por armadilhas dentro do meu próprio palácio. Eu nunca posso ter nada que seja só meu, que ele quer também para ele. Um invejoso de merda. A uma curva via umas freiras com chicotes a manietar meninas com cachecóis. Passando pelo vão de uma escada via a criatura que as tinha comido, deixando só os sapatinhos. Ia destruindo estas coisas que apareciam a cada esquina e só pensava como havia de sair dali, para que o cabrão me deixasse em paz.

Apesar de eu não ser exactamente o padrão masculino de beleza, eu tenho asas. Por isso, decidi voar dali para fora, por cima do Estige. É cómico, isto. Ele tem medo do Estige, porque está cheio de afogados a atacarem-se uns aos outros. Tem medo de ser atacado e levado para o fundo, para o pé dos que morreram cheios de rancor. Ele nunca esteve vivo, e por isso guarda rancor.

E foi assim que mais uma vez me safei de ser levado para o paraíso. Esse tal tipo que me anda a perseguir, ele é meu pai, é o pai de toda a gente, e eu odeio-o e só quero que se foda.

O meu nome? Lucifer. Podem chamar-me Luceta.

 

Este conto faz parte do desafio lançado por Rafael Dionísio, no seu Grupo Escrita Narrativa, de contar uma história ao longo do período de quarentena. Com isto, decidi fazer a série “Demos da Quarentena”, em que os vários demos falarão das consequências que a pandemia está a ter para eles. 🙂

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