Demos da Quarentena – Sexualidades

Asmodeus

Há um leitor que está enfadado com a situação e quer que lhe contem uma estória – Sexualidades

 

Para falar convosco com toda a honestidade, o problema principal de ter três cabeças é mesmo pensar. Se a minha cabeça humanoide pensa gravemente em coisas importantes, como o sentido da vida, as necessidades imediatas de Lúcifer meu senhor…. Por vezes até penso em pintar o círculo onde vivo, com as suas planícies acariciadas pelas correntes e ar, e essas almas todas a serem levadas pelo vento, batendo umas contra as outras…. É tudo tão belo! Mas, como dizia, existe um problema em ter três cabeças. Porque as outras, enfim… A cabeça da ovelha só pensa em seguir o mestre Lúcifer, comer palha e parir. A cabeça do touro só pensa em dormir, comer palha e foder. Entre parir e foder cá me encontro eu, Asmodeus, que só queria pintar um quadro com o sangue dos tarados que estão aqui no círculo.

Pois bem, um dia lá estava eu, montando o meu leãozito, apenas…. Bem, estava à procura de uma alma para poder foder e depois parir. Essa é a verdade. Mas a minha cabeça humana, esta que fala convosco, estava era à procura de inspiração. Afinal, isto é tudo tão aborrecido. Eram bons os tempos em que simplesmente podia seduzir os maridos das virgens judias e atirá-los para as correntes de vento, vendo-os desfazerem-se com a força do ar. Agora já não há virgens, nem virgens judias, portanto para poder fazer o que as outras cabeças me pedem, não!, que me exigem! Para poder fazer isso tenho de encontrar um corpito sedutor que ainda não esteja completamente despedaçado, aqui na planície.

Então, nesse dia lá estava eu a voar de um lado para o outro, à procura de um sedutor qualquer que me atraísse, quando vi um corpo praticamente inteiro. Só lhe faltavam as mãozinhas, o que era óptimo, afinal que, é que precisa de mãos? Desci do leão e postei-me à frente da pobre alminha, para a foder e para depois a voltar a parir. Era indiferente o que lhe aconteceria, já estava condenada de qualquer forma. Enfim, encontrei a alminha quase inteira e disse-lhe

“Olá!”

A criaturinha gritou, gritou muito. Os seus gritos foram levados pelo vento e logo responderam outros gritos, gritos de tarados. Esta criaturinha também haveria de ter sido um tarado. Toquei-lhe com o meu dedo peludo, mesmo no topo da cabeça, e vi a sua vida passada. Estava à espera de ver uma belíssima de uma taradice, para me motivar para a tarefa que tinha a fazer. Mas afinal esta coisinha pobre e triste nem sequer era assim tão terrível. As pessoas vêm para o inferno pelas razões mais comezinhas, coitadas. Este humano aqui tinha-se masturbado no dia de Páscoa e não se tinha confessado.

Enfim.

Tarde de mais agora.

Carreguei-lhe com mais força na cabeça para ver se fazia silêncio. Estava a ficar com uma cefaleia, na cabeça humanoide, não nas outras, claro.

“Olha para mim, humano. Vou acabar com este sofrimento imediato num instantinho. Mas não grites, está bem, ó ser humano?”

Não voltou a gritar. Eu sei que eles gritam porque eu tenho mau aspecto. Além de ter cabeças de animais, tenho vinte e quatro seios à volta do meu torso, e setenta e dois pénis balançando da minha cintura, como uma saia. São estes todos pelo número de demónios que eu domino aqui no círculo da luxúria, acreditem que isto faz sentido!

Pois.

Alguns dos pénis começaram a erguer-se, túrgidos de esmegma, e o raio da alma humana começou a gritar outra vez. Mas eu deixei o touro dominar, porque não gosto de ver estas cenas. Afinal isto é uma necessidade que eu tenho, é uma coisa que eu não posso controlar porque nasci assim, sou assim, vou ser sempre assim. Os outros generais de Lúcifer dizem “opa, tu não te metas com o Asmodeus que ele é tarado. Ele vai-te ao cu e leva no cu” e coiso e coiso e tal. Por favor!

Eu nem tenho cu!

 

Este conto faz parte do desafio lançado por Rafael Dionísio, no seu Grupo Escrita Narrativa, de contar uma história ao longo do período de quarentena. Com isto, decidi fazer a série “Demos da Quarentena”, em que os vários demos falarão das consequências que a pandemia está a ter para eles. 🙂

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