Demos da Quarentena – A Perda da Liberdade

Dragão Vermelho, Byron

Há um leitor que está enfadado com a situação e quer que lhe contem uma estória – A Perda da Liberdade

 

Eu sou o ascensorista. Trago o elevador para cima, depois de o levar para as profundezas, para que os seus passageiros vão ter com o meu senhor. Belial é o nome dele, como sabem. Sinto-me feliz quando lhe dou alimentos, porque ele está sempre com fome, isso aliado à vontade de comer. Ele quer mais e mais e nunca partilha nada com ninguém. Não me importo, porque sou apenas o ascensorista.

Infelizmente a situação está a alterar-se um pouco, devido às circunstâncias. Vejamos como era anteriormente: as pessoas chegavam, eu levava-as para baixo. Contava-lhes uma história, pois todas elas pensavam que vinham enganadas, que o elevador que tinham apanhado era o da Pollux na Baixa e que tinham ido para o subtérreo. Coisas desse género. Mas depois as portas abriam-se e eles viam-se na minha sala de espelhos. Os seus reflexos assustados repetindo-se de um lado para o outro enquanto eu finalmente sorria e dizia “chegámos”. Muitas vezes perguntavam-me que caminho deviam tomar, o caminho até à secção dos atoalhados. Coisas desse género. Eu dizia “sempre em frente, sempre em frente” e depois os gritos, também eles reflectindo-se nos espelhos, quando encontravam o senhor Belial.

Logo se acendia a luz que indicava que mais alguém tinha apanhado o elevador. Estavam à procura da secção dos linóleos ou da secção das velas de cheiro, mas o destino é assim. Ou pelo menos era. A luz vermelha acendia-se com um pling, sobrepondo-se ao tiquetaquear do relógio. Apenas simbólico, o relógio, claro, porque nunca teve ponteiros. Fechava as portas de metal articuladas do elevador e lá ia eu, em busca de mais uma presa para o senhor Belial. Apanhava-os desprevenidos, os senhores acompanhando as esposas de vestidos estampados. Desprevenidas também as raparigas que usavam o elevador como atalho para chegar ao Castelo, coitadinha. Uma forma de dizer, claro, porque sempre me diverti imenso com as caras que faziam ao chegar à minha sala de espelhos.

“Sempre em frente, sempre em frente!”

Mas ultimamente, conforme dizia, a situação está a alterar-se um pouco. O senhor Belial chamou-me e disse

“Dragão Vermelho, temos de fazer uma poupança em almas perdidas. Essas que apanhas no elevador não serão necessárias nos próximos tempos.”

“Mas senhor supremo, senhor do mal Belial, senhor, e eu? A única coisa que faço é ser o ascensorista e trazer-lhe as almas perdidas!”

“Terás de te manter na tua sala. Afinal, era esse o teu castigo desde o início.”

“Mas senhor maléfico, porquê? Eu portei-me bem todo este tempo, tanto que me deu o elevador, o que é que eu fiz para mo tirar?”

“A culpa não é tua, meu dragonete vermelhito, coisinha. É que a Dama Pestilência decidiu peidar-se grandemente em cima da humanidade e agora temos almas demais. Aqui as montanhas do quarto círculo não aguentam mais com o peso deles e até eu me sinto cheio! No Malegolbe não têm mãos a medir e já me começam a mandar alguns. É um grande problema…”

“Mas eu não posso andar no elevador mesmo sem trazer almas perdidas? Posso levar algumas daqui se quiser, entrego-as na secção dos vidros e cristais, ninguém dá por elas nem nada.”

“Não, não, dragoneta pimpona, não pode ser. Por agora vamos fazer um lay-off e ficas em casa, na sala dos espelhos.”

“Por favor?”

O grande senhor mestre dos mestres da avareza, o senhor Belial, abanou a sua mãozinha escamosa e atirou-me de volta para a sala dos espelhos.

Esperei pacientemente sentado no chão de terra batida, à espera que a luz se acendesse com um pling, mas não havia chamadas. Experimentei entrar dentro do elevador mas, como é evidente, o único botão que havia era o de fechar e abrir portas. Os botões dos andares e do para cima e do para baixo, esses tinham desaparecido.

Apesar de me ter portado muito bem e ter sido um bom dragãozinho, não podia mais fazer o meu trabalho, pelo menos enquanto o peido pestilento da cavaleira do pó-calipso não se dissipasse no ar.

Soprei umas chamazinhas, azuis e encarnadas, para que me iluminassem. Desta forma posso olhar-me nos espelhos e faço companhia a mim próprio. Estou ansioso por voltar a trabalhar e sair daqui, mas enquanto isso vou observando o meu corpo. As minha nádegas firmes têm o desenho do glúteo. Esmurro-o, com força, mas é duro como pedra. Esmurro o meu pénis que se ergue doloroso da base e não sinto nada. Vejo-o a balançar nos espelhos, uma e outra vez, como um balancé apoiado nas minhas grandes bolas lisas, como passas titânicas. Faço força com o punho para os músculos do meu braço surgirem, bolas de fibra rodeadas de veias arroxeadas. Esmurro os músculos. Esmurro a cara. Esmurro outra vez a cara. Não paro de bater em mim próprio e, espero que o senhor Belial repare nisto, já me arranquei dois dentes com a força do murro.

Espero que esta circunstância, ou como lhe queiram chamar, não dure muito tempo. Porque senão vou ter de começar a esmurrar os espelhos e depois, quando o elevador voltar a subir e as almas perdidas voltarem, elas já não vão ter companhia.

Como eu, agora, que só tenho a companhia de mim próprio.

Aguardo o feedback do meu mestre e senhor. O relógio continua a fazer o seu ruído mecânico.

 

Este conto faz parte do desafio lançado por Rafael Dionísio, no seu Grupo Escrita Narrativa, de contar uma história ao longo do período de quarentena. Com isto, decidi fazer a série “Demos da Quarentena”, em que os vários demos falarão das consequências que a pandemia está a ter para eles. 🙂

2 opiniões sobre “Demos da Quarentena – A Perda da Liberdade

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