Dia do Acto Aleatório de Poesia – A Criação do Mundo

A Criação do Mundo

Ando por cima do brilho do sol

Gotas de luz desfazendo-se nos meus dedos

De suas migalhas nasce então a criação do mundo.

 

Se no início era o nada,

Então eu era tudo.

E no meu sonho

Decidi criar.

Primeiro apareceu o dia e a noite

Por isso apareceram também o sol e a lua

E logo por isso apareceram todos os deuses

Não tinha lugar onde ficar.

Por isso inventei a água e a terra e logo veio a sopa primordial

E moléculas

E os monera

E os eucariotes

E quando dei por mim olhava para a rosa vermelha dependurada na grade branca do quintal

E olhava para a vespa que a polinizava e se alimentava das larvas de mosquito

E olhava para as larvas contorcendo-se na lama de um ralo entupido

E quando dei por mim existiam já as árvores e os espinhos,

A pedra e a esmeralda,

O rio e a nuvem,

A montanha e a areia,

O homem e a mulher e outra coisa qualquer.

Com isso nasceram os animais e eu nasci entre eles

Vi o mundo que havia criado

O austrolopiteco,

A criação do instrumento,

A charrua,

A corrente,

A cruz,

Os pregos,

A fogueira,

Homens ordenados em fileira.

Andei entre eles e toquei-lhes as faces, como se eu fosse o vento

Não sabiam que eu os tinha criado

Gritavam pelos deuses,

Quando eu nunca inventei os deuses.

Mas quando existe o mundo

Existe sempre tempo.

E o tempo passou

E continuei a ver o mundo que tinha criado

Os escravos,

Os bacamartes,

A auto-ajuda,

O LSD,

A vacina para a hepatite,

O vírus do HIV,

A mini-saia,

O rádio Hi-Fi,

O super-herói,

O filme de acção,

O género Noir,

E a televisão,

E as pessoas continuavam ordenadas

Andei entre elas e toquei-lhes

Percebi que já não havia deuses

E que brevemente nem pessoas haveria.

Eu criara este mundo

Porque queria ver a rosa vermelha

Porque queria ver a abelha

Mas no mundo que eu criei, já ninguém queria ver nada.

 

Rolo na palma da mão uma pedra azul.

Fria, a pedra azul.

Será que a partir do momento em que dizemos uma coisa em voz alta

Ela passa a fazer parte

Da nossa existência?

Tenho a certeza que mesmo eu,

Mesmo eu

Mesmo eu

Não passo do sonho nocturno de uma princesa.

 

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