O Cão, o Bem e o Mal

Henri de Toulouse-Lautrec - O Cão              Uma das razões mais frequentes para amarmos os nossos animais de estimação é a percepção de que eles têm uma “infinita capacidade de amar”. Em especial referimo-nos aos cães como seres puros e inerentemente bondosos, falando deles muitas vezes como “anjos”, “filhos” e “melhores amigos”.

               Não querendo descurar as qualidades do cão, um ser extraordinário e com uma grande compreensão da natureza humana, gostaria de esclarecer que existe uma diferença fulcral entre dois tipos de animais: os seres humanos e os outros.

               Os seres humanos são racionais. Os outros, incluindo o cão, não são. Atenção! Ser racional não equivale a ser inteligente, rápido a aprender ou a responder aos estímulos externos. Ser racional é algo diferente e é algo que – neste planeta – ainda é exclusivo da humanidade.

               Ser racional significa conseguir pensar no abstracto. Distinguir o presente do passado e fazer associações de eventos e consequências num plano mais elevado que a resposta condicionada. Por exemplo, um animal não consegue escrever. Não tem a capacidade de associar os símbolos aos sons e, ao mesmo tempo, aos seus significados. Posso mostrar uma bola azul e dizer “bola azul”. Alguns animais, como grandes primatas e psitacídeos, conseguem entender que a bola é azul e que a bola é aquele objecto. No entanto, não conseguem perceber que o objectivo do jogo é apenas saber se eles distinguem “bola azul” de “bola verde”, ou “bola azul” de “cubo azul”.

               Assim, um animal não consegue distinguir o bem e o mal. A bondade e a maldade são elementos que requerem – para a sua compreensão e aplicação – a capacidade de abstracção e a capacidade linguística. Um animal pode fazer uma coisa “boa”, como salvar uma pessoa de um incêndio. Mas ele não sabe que isso é algo de “bom”. Também pode fazer uma coisa “má”, como morder uma pessoa, sem saber que o que fez é “mau”.

               Um cão pode não saber o que é bom e o que é menos bom, mas a sua vida é mais do que um instinto. Os animais possuem capacidade de aprendizagem e emoções muito fortes. Possuem sonhos e desejos imediatos. Mas não possuem o pensamento no passado nem os projectos futuros. O cão vive no imediato. Não é um ser inerentemente bom. Não ama o seu dono com um fervor de paixão ou de religiosidade. Segue-o porque é a sua família. O objectivo de um animal, tal como o dos animais humanos, é a auto-preservação e manutenção da espécie. O cão segue-nos porque contribuímos para a sua preservação: somos a sua unidade familiar.

               Deixemos de nos referir aos animais como “bons amigos” e de os proteger tendo isso em conta. Procuremos compreender os seus comportamentos e permitir-lhes a sua concretização. Penso que respeitar as necessidades de cada espécie é mais respeitador e ético do que tratar o animal como entidade benigna.

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