#elenao

Aproximando-nos a passos largos de uma estranha eleição motivada por interesses ainda por revelar, chega a altura de o BICHOLUA analisar as opções e pensar em quem votar. Afinal, a minha dupla nacionalidade confere-me o exercício do voto, obrigatório no Brasil, e irei tentar lutar pelo melhor possível, se conseguir chegar a horas.

Mariana Lobo Espiñera - ELENAO

A luta é difícil, claro. Afinal, ao povo brasileiro são apresentadas as duas piores opções de sempre. Por um lado temos um candidato que representa o regresso de um regime fascista e para-militarizado, por outro temos uma amálgama de candidatos que reflectem opções passadas recheadas de corrupção, que elevaram o país a um estado de pânico social.

Temos as pessoas (vejo isso pela minha própria família) divididas em dois campos: o SIM e o NÃO. Será que a política se pode limitar a isto, uma dicotomia de ideais sem qualquer tipo de nuance? Consideremos o que cada uma destas coisas representam:

O candidato de “direita” propõe um programa altamente populista, com soluções imediatas para problemas imediatos, mesmo que isso ponha em causa a sanidade mental de todo um país e do mundo. A sua voz grita pelo extermínio de certos grupos sociais e chama às armas para que todos possam participar na matança. A proposta de reduzir os direitos das mulheres, não lhes dando acesso a iguais funções e salário, provém do sentimento ultra-religioso que sussurra “a mulher cuida da casa, o homem cuida da família, deus cuida de todos”. Também é esse apelo à fé que move as pessoas quando se ataca as minorias LGBTQ+, devido à sua incapacidade de crescer e multiplicar-se como da forma ordenada pelo tal deus. Será que estes sentimentos, ultrapassados e enterrados na areia há dois mil anos, deverão decidir a opção de voto?

Advoga também a exterminação da pobreza. Exterminando os pobres. Se eu tiver uma arma e o bandido tiver uma arma eu!, qual filme de acção filmado em Roliwud, irei vencer. Ser o herói. Ser tal e qual o Batman, anti-herói da escuridão, com suas asas a pairar sobre as forças do mal. Mais uma vez, um apelo ao sentimento irracional, à superação do próprio poder através de forças obscuras.

Isto, acontecendo, será justo? Tu, mulher grávida, gostarias de ver a tua entrada no mundo de trabalho dificultada pela tua condição, ela própria tão natural e evidente? Se massificarmos a discriminação racial, será que iremos reduzir a pobreza? Se matarmos todos para eliminarmos os pobres e assim reduzir a pobreza, sobra alguém? Sobra mais alguém? Se matarmos a pobreza de espírito teríamos muito mais a ganhar.

 

A nossa segunda (e última opção) é tudo o resto. Um conjunto de doze pessoas, a “esquerda” que diz toda mais ou menos a mesma coisa. Representantes de uma amálgama de regimes e políticas que afectaram toda a América do Sul (em tempos não muito remotos) são tidos como os verdadeiros bandidos deste esquema. As suas propostas estão debaixo da sombra: o facto de um partido ter lutado tanto pelo regresso do seu representante, acusado (e talvez mesmo culpado) de corrupção grave, faz desconfiar. O país está caótico, eles estavam lá. Eles fizeram o país caótico. Será que se votarmos neles outra vez, vai ficar ainda pior? Pode ficar ainda pior?

A verdade é que doze indivíduos, representando doze partidos, representando doze opções, não podem pensar todos o mesmo. Se temos um partido com uma fortíssima componente clubística, não podemos negar que todas as propostas se dirigem numa mesma direcção: a luta contra a corrupção, a luta pela manutenção de direitos sociais para todos, assim criando mais fluxo económico para a recuperação dos estragos anteriores. Esta manutenção dos direitos sociais significa, evidentemente, maior liberdade para pensar e para criar um tipo de pensamento crítico e contra a massa, o que é sempre assustador. O pânico prevalece: se todos formos livres, terminará a beleza? Se não pudermos viver sob a máscara do belo, sem ver as larvas e os pintelhos, não ficará tudo ainda pior?

Existe um combate contra a liberdade cultural e contra a voz individual. Reconheço que, após gerações de desequilíbrio, seja fácil localizar o problema nas pessoas que “incomodam”. O artista, a quem não deve ser permitido mostrar a realidade feia. A lésbica, a quem não deve ser permitido ter filhos, já que odeia os homens. O pobre, a quem devem ser negados cuidados básicos de saúde, pois se trabalhassem mais teriam dinheiro para os pagar. O preto, a quem deve ser negado o direito ao trabalho, porque está a roubar empregos valiosos.

Muitos dos doze desta segunda opção propõem esses direitos tendo um pensamento mais longínquo: a redução da pobreza, a atribuição de direitos para todos, irá reduzir todos os outros problemas. Se todos tiverem o que comer, o que beber, onde viver, o que vestir, o que fazer. O que fazer, sobretudo. Se todos tiverem isso, será que os “bandidos” precisarão de ser bandidos?

São situações hipotéticas. A luta é tentar que não se reduzam ao sim e ao não. Não podemos escolher “dos males o menor”. Mas estamos prestes a escolher “dos males o pior”. Por isso o movimento existe. Para defendermos o direito à vida das pessoas que cá estão. Para defendermos o direito à liberdade, de viver, de se expressar, de trabalhar, de amar. Porque não será isto permitido? Porque é que não deveríamos todos ter os mesmos direitos? Será que existem, nesta humanidade, seres inferiores e superiores? Todos feitos da mesma matéria, das mesmas células e das mesmas bactérias, como inferiores ou superiores?

Não sei qual será o meu voto, se conseguir votar. Sei que, estando estas teclas disponíveis na urna electrónica, irei escrever com todo o meu coração:

#ELENÃO

 

ELENAO

 

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